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    Um Lindo Domingo para todos!!!

     

     

    Abre a janela, e olha!
    Tudo o que vires é teu.
    A seiva que lutou em cada folha,
    E a fé que teve medo e se perdeu.
    Abre a janela, e colhe!
    É o que quiser a tua mão atenta:
    Água barrenta,
    Água que molhe,
    Água que mate a sede...
    Abre a janela, quanto mais não seja
    Para que haja um sorriso na parede!

    (Miguel Torga)

     

     

    QUE SEU DOMINGO

    SUA SEMANA

    SEJAM DE PAZ, ALEGRIAS E MUITO CARINHO!

     

    UM ABRAÇO

     

     

    http://schsonia.blogspot.com/

     

    Noturno


    Devagar, devagar... A noite dorme
    e é preciso acordar sem sobressalto.
    Sob um manto de sombra, denso, informe,
    o mar adormeceu a sonhar alto.

    Devagar, devagar... O rio dorme
    sobre um leito de areias e basalto...
    Malhada pela neve a serra enorme
    parece um tigre a preparar o salto.

    E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
    Nenhum rumor. Nenhum frêmito de asas.
    Nada perturba a noite bela e calma.

    E dormem os rosais, dormem os cravos...
    Dormem abelhas sobre o mel dos favos
    e dorme, na minha alma, a tua alma.

    Fernanda de Castro

     

    Bastam-me as cinco pontas de uma estrela

     

     

    Bastam-me as cinco pontas de uma estrela

    E a cor de um navio em movimento.

    E como ave, ficar parada a vê-la.

    E como flor qualquer odor no vento.

     

    Basta-me a lua ter aqui deixado

    Um luminoso fio de cabelo

    Para levar o céu todo enrolado

    Na discreta ambição do meu novelo.

     

    Só há espigas a crescer comigo

    Numa seara para passear a pé

    Esta distância achada pelo trigo

    Que me dá só o pão daquilo que é.

     

    Deixem ao dia a cama dum domingo

    Para deitar um lírio que lhe sobre.

    E a tarde cor-de-rosa num flamingo

    Seja o tecto da casa que me cobre.

     

    Baste o que o tempo traz na sua anilha

    Como uma rosa traz Abril no seio.

    E que o mar dê o fruto duma ilha

    Onde o Amor por fim tenha recreio.

     

    Natália Correia

     

     

    http://schsonia.blogspot.com/

     

    Eu tenho sempre Gaivotas

     

    Eu tenho sempre Gaivotas
    Do pensamento ao desejo
    Que chegam em cada abraço,
    Que partem em cada beijo,
    Eu tenho sempre Gaivotas
    Do pensamento ao desejo!

    Eu trago sempre Gaivotas
    Neste céu onde eu existo,
    Gaivotas de dor profunda,
    Dessa dor de que me visto,
    Eu trago sempre Gaivotas
    Neste céu onde eu existo!

    Em mim há sempre Gaivotas
    Em bandos, como pardais,
    Gaivotas de Liberdade,
    Morrem muitas, nascem mais;
    Em mim há sempre Gaivotas,
    Em bandos, como os pardais!
    Que eu, tenho sempre Gaivotas
    Do pensamento ao desejo,
    Que partem em cada abraço,
    Que chegam em cada beijo,
    Que nascem no Coração,
    Levantam vôo da mente,
    Gaivotas feitas futuro
    E passado e presente,
    Gaivotas de todo o Amor,
    De sorriso, de partida,
    Gaivotas feitas de morte,
    De saudade e despedida;
    Que ser Gaivota é ser forte,
    É ser Livre para Amar,
    É ser Livre de partir,
    É ser Livre de chegar,
    Livremente viajando
    Nas vagas de cada olhar;
    E, porque me perco no tempo
    Por no tempo andar perdida,
    Por isso é que há Gaivotas
    Dentro de mim, por toda a VIDA!...

    Maria Mamede, in "Pelas Letras do Alfabeto"

    Chuva

     

     

    Chove uma grossa chuva inesperada
    que a tarde não pediu mas agradece.
    Chove na rua, já de si molhada
    duma vida que é chuva e não parece.
    Chove, grossa e constante,
    uma paz que há de ser.
    Uma gota invisível e distante
    na janela, a escorrer.

    Miguel Torga

     

    GUARDA TU

     

     

    Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
    talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
    a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
    camas desfeitas algures pela manhã,
    o abrigo de um corpo agitado no seu sono.

     

    Guarda-o serenamente e sem pressa,

    como eu nunca soube.
    E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
    de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
    as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
    para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
    a sua respiração cálida e ofegante
    no compasso dos sonhos, que é onde esconde
    os mais escondidos medos e anseios.

    Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
    antes de adormecer. E depois aguarda que,
    na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
    ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

    Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
    que os dias trazem à casa quando são tranqüilos.
    E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
    deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
    atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
    haverá sempre sol e para sempre o terás,
    como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
    por assim não ter feito.

     

    Maria do Rosário Pedreira

    Às tuas asas


    Às tuas asas
    A minha voz te alcançou
    quando eu nem dizia,
    quando eu trancava o verso
    no coração.
    Não havia revolta
    no que eu não merecia,
    não houve grito, dilaceração,
    e pousou em mim a vida,
    a minha vida que já ia... ia...
    a minha vida encontrou a si.
    Se eu sei o que me principia
    e o que me traz de volta, pela mão,
    deixo às tuas asas o meu vôo tímido,
    às tuas aves a orientação...

    Quando for o tempo,
    de ser passarinho,
    ser da natureza
    do teu vôo e céu...
    quando o meu querer
    não for prisão,
    mas poesia...
    quando o sonho que não se adivinha
    sonha, vibra, tece acordes,
    teu,
    quando o meu amor for, à travessia,
    merecedor,
    dou às tuas asas minhas asas vivas,
    pra ser ave, livre,
    pelo teu amor.


    Yohana Rinnardi

    Imagens: Costão do Santinho, Florianópolis, SC

    Hei fantasma

     

    Hei fantasma não quero mais brincar

    Que graça tem brincar de fantasma?

    Vento morno, esconde-esconde,

    Quando minha vontade é de voar

    Voar sete saias de alma

    E sentir o coração disparar

     

    Larguei esse baú no fundo das águas

    Cansei desse baile de máscaras,

    Dessa música de fundo, fundo de mar,

    Das mil e uma cartas sem respostas,

    E desse seu, apenas, conjugar de verbos

     

    levo na mão a palma

    -metade de um mapa-

    Carrego o vento nos cabelos,

    O olhar enigmático das fadas,

    E pra semear, o amor entre os dedos

     

    Trago as asas de um sonho que brotou nas minhas costas,

    As flores de março, quadris da floresta,

    Cravejado no coração da mata,

    E do acaso as longas pernas

     

     

    Abigail

    http://lluzdalua.multiply.com/journal?&page_start=60

    O VENTO



    O vento passa nas tardes mornas,

    Sinto seu abraço,

    Sinto que vive e canta dentro de mim.

    Sinto o sopro do vento, o cheiro do mar,

    O ilimitado do céu vazio,

    Ar que penetra suave e reascende uma

    Chama cósmica em meu coração.

    Abençoada seja esta natureza silenciosa.

    Há uma parte de mim que se ausenta

    E parte com o vento,

    Todos os dias um pouco,

    Enquanto o poente no céu se estende

    Numa saborosa melancolia...

    Mas agora volto...

    Volto à minha vida,

    Hora de seguir  caminho,

    Natureza e vida ainda sorriem para mim...

     

    Sônia Schmorantz




    Cantinho Escondido

     
     
     
    Dentro de cada pessoa
    tem um cantinho escondido
    Decorado de saudade
    um lugar para o coração pousar,
    um endereço que freqüente sem morar,
    ali na esquina do sonho com a razão,
    no centro do peito, no largo da ilusão.

    Coração não tem barreira não,
    desce a ladeira, perde o freio devagar,
    eu quero ver cachoeira desabar,
    montanha roleta russa felicidade,
    posso me perder pela cidade,
    fazer o circo pegar fogo de verdade,
    mas tenho meu canto cativo para voltar.

    Eu posso até mudar
    mas onde quer que eu vá
    o meu cantinho há de ir
    dentro...


    Arnaldo Antunes
     

    Quando as mãos deslizam no teclado


     

    Quando as mãos deslizam no teclado
    Mesmo cansadas da lida
    As palavras percorrem matizes
    Do tempo e da saudade
    Em busca de suas razões...
    A cada minuto a alma se confessa
    Confusa, saudosa e muda
    Pela fugacidade da vida.
    Alma instável, sem o mar
    Para cobrir de sombras e cores,
    Com saudades das pessoas
    Que amava e se foram...
    Triste alma de poeta
    Que amando se desnuda
    Que silenciada se cala...
    Vazios, ausentes,
    luz apagada
    Ninguém em casa...

    Sônia Schmorantz



    Epitalâmio

     



    Apenas as gotas de chuva: compassadas e mansas.
    A folhagem, lá fora, adormeceu feliz.
    Despertando na relva, cantam grilos baixinho.
    A confidência da chuva, a confidência dos grilos,
    Tudo que vem da noite é surdina e doçura.

    Certeza não direi, mas direi: esperança.
    Deves pensar em mim neste momento mesmo.
    Teu pensamento é o meu, tua esperança é a minha.
    Através do espaço,não é verdade? As nossas mãos
    estão apertadas, em segredo.
    Sinto que o nosso amor era grande como a noite
    E que o melhor de nós habita na distância
    Que nos espera.

    Ribeiro Couto

    Os seres amados

     

     

    Os seres amados são sombras que se apagam,
    são sombras de um jardim, no entardecer.

    Nós tínhamos no olhar o encantamento
    dos lúcidos recortes,
    dos arabescos harmoniosos
    desenhados no chão.

    Mas um por um diluíram-se os desenhos
    numa sombra maior ...

    Os seres amados são sombras,
    são sombras de um jardim, no entardecer ...


    Tasso da Silveira

     

    ORAÇÃO CELTA





    Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente ódio.
    Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
    Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
    Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
    Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
    Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
    Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
    Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
    Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.




    Sem pretensão poética

     
     
    A noite é um quadro adormecido,
    Com a lua lendo a alma da gente.
    Estes pensamentos dançantes,
    Que penetram na noite
    Enquanto morrem as estrelas.
    Serenos silêncios da madrugada,
    Coração deambulando saudades.

    Amo a noite calada,
    O som dos pios noturnos,
    Os soluços da natureza e
    O roçar das folhas nos telhados.
    Vejo meu amor nas sombras da noite,
    Quando vaga, viajante na noite fundida,
    Desfaço a distância e me lanço ao vento,
    Com o coração aberto à vida...


    Sônia Schmorantz
    20/03/2009
     

    É PRIMAVERA!!!

     

    Caminhe com leveza na primavera.
    A Mãe Terra está grávida.

     
     
    IMAGENS:  Richard Detrich e Today Flowers
     
    Visite também:
     
     
    FELIZ DOMINGO! FELIZ SEMANA!
    UM ABRAÇO
     

    Secretamente

     

     

    Seus olhos estão perigosamente dentro
    de mim
    aqui fizeram morada e estão como Deus
    em toda parte, se interpondo
    entre a paisagem mais próxima
    entre a fresta de luz e a imagem
    tangenciando meu olhar
    que não sabe olhar puro
    que se trai a cada segundo.

    Seus olhos estão perigosamente pousados
    sobre mim como borboleta em flor
    cobrindo minha pele em ternura
    suaves como seda a farfalhar sobre os poros
    e os pelos.
    Luzes que incendeiam em sublime música
    meu corpo aceso
    em sede
    Sombras sobre minha noite embalam meu sono
    devassando meus sonhos
    onde secretamente me assombram
    estando fora e sendo dentro espelhos de amor

     Intenso e imenso.

    Nossos olhos estão perigosamente
    em comunhão a despeito da separação
    que a vida nos impõe.
    E nossas vidas sob risco
    entre sermos felizes ou tristes
    e nossos destinos por um triz
    entre sucessos e desatinos.
    Secretamente espreitamos-nos
    como caminhos à beira
    de atraentes abismos.

    Virgínia Schall

    Retrato de corpo inteiro



     

     

    No azul do teu peito ensolarado
    há espelhos de cristal multiplicando imagens.

    Emergem risos, lágrimas, promessas
    olhares infantis perdidamente
    infinitamente apaixonados
    adolescentes.

    A vida renasce das tuas mãos tremulas
    entrelaçadas
    — há muito tempo entrelaçadas —
    Reencontradas.

    No espaço secreto da memória,
    nosso retrato- De corpo inteiro -
    É o quadro mais bonito
    que se pode iluminar.

    Anna Maria Feitosa


    Viagem imagem coragem, Ins.Piaget - Div.Editorial, 1999 - Lisboa, Portugal

    Poema de Lya Luft

     

    Não sou a areia
           onde se desenha um par de asas
           ou grades diante de uma janela.
           Não sou apenas a pedra que rola
           nas marés do mundo,
           em cada praia renascendo outra.
           Sou a orelha encostada na concha
           da vida, sou construção e

           desmoronamento,
           servo e senhor, e sou
           mistério
           A quatro mãos escrevemos este roteiro
           para o palco de meu tempo:
           o meu destino e eu.
           Nem sempre estamos afinados,
           nem sempre nos levamos
           a sério.

     

    Oração à Natureza

    "Por este mundo Ó Deus, nós te damos graças por este universo, nosso lar; pela sua vastidão e riqueza, pela exuberância da vida que o enche e da qual somos parte.

    Nós te louvamos pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bênçãos, pelas nuvens que navegam e as constelações, lá no alto.

    Nós te louvamos pelos oceanos, pelas correntes frescas, pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo capim sob os nossos pés.

    Nós te louvamos pelos nossos sentidos: poder ver o esplendor da manhã, ouvir as canções dos namorados, sentir o hálito bom das flores da primavera.

    Dá-nos, rogamos-te, um coração aberto a toda esta alegria e a toda esta beleza, e livra as nossas almas da cegueira que vem da preocupação com as coisas da vida e das sombras das paixões, a ponto de passar sem ver e sem ouvir até mesmo quando a sarça, ao lado do caminho, se incendeia com a glória de Deus.

    Alarga em nós o senso de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs, a quem deste esta terra por lar, juntamente conosco.

    Lembramo-nos, com vergonha, de que no passado aproveitamos do nosso maior domínio e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da terra, que deveria ter subido a ti numa canção, tornou-se um gemido de dor.

    Que aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós; que elas vivem para si mesmas e para ti, que elas amam a doçura da vida tanto quanto nós, e te servem, no seu lugar, melhor que nós no nosso.

    Quando chegar o nosso fim, e não mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos de dar nosso lugar a outros, que não deixemos coisa alguma destruída pela nossa ambição ou deformada ela nossa ignorância.

    Mas que passemos adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e alegria, e assim nossos corpos possam retornar em paz para o ventre da grande mãe que os nutriu e os nossos espíritos possam gozar da vida perfeita em ti."

    Rubem Alves, do livro Orações por um mundo melhor, PAULUS, 1997